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Artigos
Felicidade, dos banqueiros e a nossa
Antonio Delfim Neto
O sistema de "metas de inflação" é
apenas uma excrescência artificial inventada para extrair juros dos países
periféricos
Historicamente, o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) foi um
instrumento de aconselhamento econômico estritamente alinhado às políticas
econômicas hegemônicas vigentes. Foi assim durante a ditadura e persistiu dessa
forma nos anos neoliberais, especialmente nos dois governos da administração
FHC.
O presidente Lula conviveu com essa situação em seu primeiro mandato, quando
prevaleceram algumas dessas políticas baseadas no tripé meta de inflação, juro
alto e superávit primário.
Mas, em razão de uma importante mudança nos rumos da política econômica, ao
colocar o Estado e o setor privado nacional no centro do desenvolvimento do
País, através do PAC, o presidente resolveu entregar a direção do IPEA, na
segunda fase de seu governo, a economistas liderados pelo competente professor
Márcio Pochmann, da Unicamp, cuja linha de pensamento está totalmente dissociada
do conservadorismo monetário reinante no Banco Central.
Os monetaristas de plantão e seus porta-vozes instalados na mídia não tardaram a
chiar contra a mudança e a reforçar, agora, o coro histérico contra Pochmann e
sua equipe, que resolveram, acertadamente, suspender a divulgação sistemática da
Carta de Conjuntura daquele órgão, cuja linha editorial está muito mais alinhada
à política do BC do que com o novo IPEA.
Quem mais estrebuchou foi o colunista Elio Gaspari, da Folha de S. Paulo, que
chegou a acusar a nova direção do órgão a praticar a "grosseria" de um
"comissariado bolchevique". Um preconceito atroz contra os responsáveis por um
dos fatos mais marcantes da história contemporânea, que foi a Revolução Russa de
1917, para ele, certamente, muito mais grave que a política antes praticada
pelos tsares.
Gaspari insurgiu-se contra a correta e oportuna decisão tomada pelo IPEA de
suspender a divulgação de projeções macroeconômicas que, todos sabemos, são
produzidas artificialmente pelo chamado mercado, leia-se, bancos, notadamente os
estrangeiros, para, mais do que justificar, mitificar a política de juros altos
do BC que, sob o surrado e combalido pretexto de combater a inflação, conspira
abertamente contra o PAC, o desenvolvimento do País e, conseqüentemente, a
manutenção das políticas de inclusão social tão bem-sucedidas no governo Lula.
Em quase meia página de jornal, o colunista faz questão de não esconder sua
preferência por Pedro Malan e Edmar Bacha, entre outros responsáveis pela
desastrosa política econômica adotada nos anos FHC, quando o País, literalmente,
andou para trás em matéria de crescimento econômico e de distribuição de renda.
E escancarou sua admiração pelos boletins do BC, que, segundo ele, "produz e
divulga análises de boa qualidade" e que o que o "comissariado", agora chamado
de "petista", quer é "brincar de felicidade". Suas pérolas foram mais longe ao
escrever que "o mercado", essa santidade invisível que continua (des)governando
tudo e todos, "é uma coisa essencialmente boa" e que "os países que seguiram sua
dinâmica prosperaram", enquanto os outros "arruinaram-se".
Não por acaso, o articulista fugiu do risco de citar um único exemplo, nem de
prosperidade, nem de ruína. Sua dificuldade em encontrar nos seus alfarrábios
uma única nação que tivesse conseguido se desenvolver sob o rígido figurino do
FMI e do atual BC não foi gratuita. Todavia, poderíamos citar muitos países, em
várias partes do mundo, o salto em cujo processo de desenvolvimento só foi
possível graças a uma política de juros baixos e fortes investimentos, e sem a
radicalidade dos superávits primários que aqui ainda verificamos e o uso da
ameaça inflacionária como instrumento de terror e de chantagem para manter as
medidas vigentes, os mesmos expedientes utilizados para alardear uma suposta
crise alimentar e, assim, manter o País refém dos ditames das notas técnicas do
BC e tímido na tentativa de buscar uma nova matriz energética.
Recorremos a um único e ilustrativo caso, exatamente sobre as conseqüências
dessa política no País que mais glorifica o mercado, a meca do capitalismo, os
EUA. Durante os 19 anos (1987-2006) em que ocupou a presidência do banco central
norte-americano, Alan Greenspan se lixou para as metas de inflação. Então,
perguntamos: onde foi que tal sistema foi "consagrado", nas palavras do
xerife-mor dessa política em nosso país, Henrique Meirelles?
O exemplo confirma apenas que esse modelo só serve para nós, pobres mortais,
países subdesenvolvidos, mas não para eles, sacramentando definitivamente a
máxima adotada por outros motivos no tempo da guerra fria de que "o que é bom
para os EUA é bom para o Brasil". Pelo jeito, o presidente do BC não concorda
com isso e continua anunciando e pregando aos quatro ventos que os juros
continuarão subindo... por causa da inflação. Diga-se de passagem que Meirelles
foi mais longe, chegando a inventar uma nova teoria: a de que não basta atingir
a meta de inflação, isto é, ficar dentro da banda, mas atingir o centro da meta
(4,5%) -se não, é o fim do mundo.
Voltemos a Gaspari, que acusa a atual direção do IPEA de promover um tal
"patrulhamento intelectual", seguramente porque considera que o que era
produzido antes pelo órgão e, hoje, pelo BC, sob o eficiente comando do mercado,
nada tinha de ideológico. Tratava-se, apenas, de análises técnicas isentas,
comprometidas com a economia nacional e com o País. Acorda, Gaspari! Estamos no
século XXI e, pelo jeito, o dileto colunista continua acreditando em cegonha e
Papai Noel.
O fato é que o sistema de "metas de inflação" é apenas uma excrescência
artificial inventada para extrair juros dos países periféricos, sem considerar
as necessidades de crescimento e as carências do País, totalmente descolada da
realidade, e exclusivamente para favorecer uma malta de especuladores,
assegurando-lhes a felicidade eterna, aquela de que Gaspari reclama que o
"comissariado petista" do IPEA pretende estender a 180 milhões de brasileiros.
21/07/08 - 00:00 > Opinião
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